A percepção de que os Estados Unidos passaram a agir como um “emergente populista” deixou de ser apenas uma provocação de mercado e começou a ganhar corpo entre investidores globais. Essa mudança de leitura tem provocado um efeito direto: a realocação de capital que sai de ativos americanos em direção a mercados emergentes — com o Brasil despontando como um dos principais beneficiários. Segundo relatos do Bradesco BBI após reuniões recentes com investidores nos Estados Unidos, a comparação entre os EUA e economias emergentes se tornou mais frequente e menos anedótica. A interferência do governo Donald Trump em instituições tradicionais, como o Federal Reserve, somada às incertezas fiscais e comerciais, vem enfraquecendo o dólar e estimulando a busca por alternativas fora do eixo tradicional.
Brasil ganha protagonismo
Nesse novo mapa mental dos investidores, o Brasil aparece com destaque. Apesar de responder por cerca de 4% do índice MSCI de mercados emergentes, o país tem atraído uma atenção muito superior ao seu peso formal. O motivo está na combinação de liquidez, valuation atrativo e potencial de retorno. Na prática, a Bolsa brasileira é vista como o único mercado da América Latina capaz de absorver volumes expressivos de capital estrangeiro. Isso consolida o país como uma espécie de porta de entrada regional. Para analistas, o Brasil funciona como o “mercado âncora” do continente, com uma liquidez que permite posições relevantes sem distorções excessivas de preço.
Recordes no Ibovespa
O reflexo desse movimento já aparece nos números. Em 2026, o fluxo estrangeiro tem sido o principal responsável pelos recordes sucessivos do Ibovespa. Na última sexta-feira (23), o índice chegou a ultrapassar, pela primeira vez, a marca dos 180 mil pontos, encerrando o pregão aos 178.858 pontos. Apenas naquela semana, a alta acumulada foi de 8,53% — o melhor desempenho semanal desde abril de 2020. O apetite externo também se confirma no fluxo financeiro. Na última semana, investidores estrangeiros foram compradores líquidos de R$ 7,7 bilhões. No acumulado do mês, o ingresso já soma R$ 12,4 bilhões, equivalente à metade de todo o fluxo registrado ao longo de 2025.
Juros e eleição no radar de 2026
Além do cenário internacional favorável, dois fatores domésticos sustentam a tese positiva para o Brasil em 2026. O primeiro é o início esperado do ciclo de cortes de juros, partindo de uma das maiores taxas reais do mundo. O consenso entre investidores aponta para reduções entre 200 e 300 pontos-base ao longo do ano, o que levaria a Selic de 15% para algo entre 12% e 13%. O segundo fator é o ciclo eleitoral. Embora o tema tenha passado a ocupar o centro das discussões mais recentemente, especialmente pelo impacto fiscal das propostas em debate, o risco é visto como elevado, porém administrável. Não há, ao menos por ora, a leitura de que o processo eleitoral seja capaz de desorganizar o cenário macroeconômico.
Estratégia: cautela e oportunidade
Apesar do interesse crescente, poucos investidores estrangeiros estão se posicionando diretamente em função da eleição. Muitos já estão overweight em Brasil, mas preferem aguardar episódios de maior volatilidade para ampliar a exposição. A diferença de leitura entre investidores locais e estrangeiros chama atenção. Para os fundos internacionais, o cenário brasileiro parece mais assimétrico, com disposição para comprar eventuais quedas provocadas por ruídos políticos. Nos encontros com investidores, as perguntas se concentraram em empresas capazes de capturar tanto o bom momento global quanto o doméstico. Entre os nomes mais citados estão Petrobras, Vale, Weg e BTG Pactual — ativos vistos como alavancas naturais desse novo ciclo de interesse pelo Brasil.


